Crise econômica e caos político

O caos político que assola o país é incompatível com o enfrentamento racional da crise econômica. Não há espaço para criar as decantadas condições necessárias à solução: a) redução do deficit público, com corte de despesas, aumento temporário de receitas e queda da conta de juros sobre a dívida pública e b) reversão das expectativas adversas das taxas de juro e inflação e dos investimentos e cosumo privados.

A sociedade brasileira não assumiu o papel de sujeito, na solução da crise. Não adianta continuar transferindo passivamente essa responsabilidade para os órgãos, aparelhos e instituições do Estado. Com o atual sistema político e seus partidos, a precária divisão situação-oposição e os miseráveis padrões morais e éticos, não há governo que faça o ajuste econômico.

Dificilmente emergirá um pensamento social coeso capaz de pautar a atuação do poder público contra a crise. Vivemos, desde 2012, uma fase de acirramento do conflito distributivo, com o baixo crescimento econômico do país. Há sérios problemas entre os trabalhadores ativos e aposentados, para acomodar seus anseios de bem-estar com a apropriação de uma parcela percentual cada vez menor da renda nacional.

Os movimentos sociais das ruas, junho de 2013, não geraram consequências relevantes. Representaram, mais propriamente, momentos de catarse sem criar caminhos políticos democráticos inovadores. Mas foram importantes, pela visibilidade que deram à indignação contra a corrupção e a atuação sistêmica da política e dos poderes executivo, legislativo e judiciário.

Os segmentos populacionais das vozes das ruas formam uma força social heterogênea e contraditória. Destacam-se, nesse sentido, os interesses antagônicos dos beneficiários de transferências de renda (Bolsa Família, etc.), dos aposentados, dos mais de 30 milhões de pessoas que ascenderam à classe C e das tradicionais classes médias e de altas rendas. Isso é um reflexo perverso da concentração crescente da renda nacional em favor dos lucros empresariais e ganhos dos rentistas do capital financeiro.

As manifestações populares exigem serviços públicos de qualidade, preferencialmente gratuitos, nos transportes coletivos, educação, saúde, segurança, etc. Esquecem que a capacidade efetiva de atendimento é relativamente modesta. Até porque exige expressivo aumento de despesas públicas e tributos que, no modelo vigente, incidem pesadamente sobre os trabalhadores.

O Brasil caminha, assim, sem espaço público de equacionamento e solução de seus problemas socioeconômicos. Os segmentos sociais não os sujeitos que deveriam ser nem o governo comanda e integra um poder público que represente os interesses de toda a sociedade. Nesse vácuo de virtudes sociopolíticas, a crise fiscal e econômico-financeira avança a passos largos, desde 2014.

Desse modo, a crise econômica brasileira tende a se resolver segundo a mais reacionária e superada lógica capitalista. Não por acaso, as políticas fiscais e monetárias do governo nada têm de anticrise com vistas à dinâmica expansiva dos setores produtivos. Claramente, elas vêm aprofundando os impasses ao seu limite terminal.

É preciso ir ao fundo do poço para criar as condições de recuperação típicas do capitalismo selvagem. Resta apelar para que isso aconteça, em 2016, sem grandes complicações sociais e políticas, após um desastroso biênio de gigantescos níveis de recessão, desemprego, queda de salários e desvalorização cambial.

Rômulo Polari