De Londres a NY, instituições de renome oferecem ajuda ao Museu Nacional

Enquanto o Museu Nacional se prepara para retirar o que pode ter escapado das chamas que atingiram o prédio há nove dias, a comunidade internacional articula iniciativas para ajudar na reconstrução do prédio e no reparo do acervo. As ofertas incluem envio de técnicos, empréstimo de obras e até dinheiro – a Alemanha ofereceu 1 milhões de euros, o equivalente a R$ 5 milhões.

Na última semana, um documento encabeçado por Ellen V. Futter, presidente do Museu Americano de História Natural de Nova York, um dos mais prestigiosos no mundo, tornou público o compromisso de ajudar o equivalente carioca. A instituição dos EUA teve, no ano passado, uma receita de 192 milhões de dólares (R$ 784 milhões) — 1.500 vezes o que o Museu Nacional pedia (e, há três anos, não recebia) para a manutenção.

No momento em que nossos colegas no Brasil olham para o futuro, nos comprometemos a apoiá-los nas próximas semanas, meses e anos
Documento intitulado ‘Declaração de solidariedade com o Museu Nacional do Brasil’

O documento reunia, ao todo, assinaturas de 12 diretores ou presidentes de instituições estrangeiras, incluindo também o Museu de História Natural de Londres – outro gigante do setor. A lista completa é esta:

Alemanha
  • Museu de História Natural de Berlim

Bélgica

  • Instituto Real Belga de Ciências Naturais

Canadá

  • Museu Real de Ontário

Dinamarca

  • Museu de História Natural da Dinamarca

EUA

  • Museu Americano de História Natural (Nova York)
  • Museu de História e Ciência de Denver
  • Museu Field (Chicago)
  • Museu de História Natural de Los Angeles
  • Smithsonian Institution (Washington DC)

França

  • Museu Nacional de História Natural da França

Holanda

  • Centro de Biodiversidade Naturalis

Reino Unido

  • Museu de História Natural de Londres

Embora não possamos mudar os eventos daquele fim de semana, nós, como museus de história natural, continuamos comprometidos em trabalhar juntos para usar nossas coleções e o poder científico coletivo para gerar e proteger informações que podem ser usadas pela comunidade mundial

Abismo orçamentário

O episódio expõe ainda a grande diferença de patamares orçamentários e de visitantes entre a instituição brasileira e as estrangeiras.

No ano fiscal de 2016/2017, o Museu de História Natural recebeu 49 milhões de libras (R$ 262 milhões) do governo britânico.

O museu britânico é uma das atrações principais na capital da Inglaterra e recebeu 4,6 milhões de visitantes no ano passado — 23 vezes o público do Museu Nacional em 2017.

Tem uma diferença muito grande e triste na valorização de museus e na pesquisa no Brasil, comparado com Europa ou EUA

Mariana Françozo, brasileira, professora de museologia na Universidade de Leiden, na Holanda.

“Mesmo com crise nos orçamentos de museus na Europa, há uma consciência e uma visão do poder público, ambos da esquerda e da direita, de que os museus fazem parte da identidade nacional e também do patrimônio da humanidade”, disse ao UOL.

Pagamento voluntário

O Nacional cobra R$ 8, mas oferece gratuidade em alguns dias da semana, além de descontos para estudantes.

No Museu Americano de História Natural de Nova York, a entrada é gratuita. O visitante recebe uma sugestão de deixar 22 dólares (cerca de R$ 90), por adulto. Vem daí 28% da da receita do museu no ano passado (o equivalente a R$ 217 milhões), a maior fatia.

A Prefeitura de Nova York respondeu por 9% da receita do museu (R$ 69 milhões). O restante vem de grandes doadores.

Seja qual for a fonte, pesquisadores internacionais veem, no Museu Nacional, dinheiro insuficiente. “Há um subfinanciamento sistemático, o que é inacreditável para acervos e pesquisadores tão extraordinários,” disse ao UOL Laura Van Broekhoven, diretora do Museu Pritt Rivers, ligado à Universidade de Oxford, no Reino Unido.

“O Brasil é um ator global em pesquisa, e os acervos do Museu Nacional eram de alta qualidade”, disse a pesquisadora, que trabalhou com o Museu Nacional durante sua pesquisa sobre comunidades indígenas da Amazônia.

Ela contou que passou mal ao saber do acidente no Rio. “Me senti totalmente destruída, até náuseas, pensando tudo que foi perdido lá. É o pior pesadelo para um diretor de museu.”

“Funciona como um quebra-cabeça: cada museu tem peças que compõem um todo. A parte do Brasil era crucial, e agora teremos para sempre um buraco aí”, disse.

Peças do acervo do Museu Nacional/UFRJ

Reconstituição do rosto de Luzia, feita a partir do fóssil considerado o mais antigo de um ser humano nas Américas, apresentada no Museu Nacional, no RioImagem: Gregg Newton/Reuters

UOL